Escalei um arranhacéu
de palavras
eu mesmo empilhei
em noites negras insones
enquanto caminhava
sobre as letras em ladrilhos
não sentia os pés
se pisei nas flores
por alguns instantes
foi por sentir que era macio
o andar sobre os versos.

O medo é um bicho
farejando no meio da selva.
Quando tem chance,
avança sobre a vítima
aspira-lhe todo o ar
mastigando o coração
e deixa a alma estribuchando
gritando aos céus
ou pedindo qualquer pensamento
que lhe tire dali e lhe salve.

meu coração, minha alma,
já não me pertencem mais
tudo devolvi a quem me criou.
Meus sonhos mais antigos também.
Um dia
quando o sol nascer
no meio da noite
eu estarei lá,
bem no meio,
para ver na luz
de que são feito os sonhos,
e como ele nos fazem.
Quero segurar um
ainda na semente
e esconder no travesseiro.

Quando a noite cair
estarei pronta
para apará-la
guardar em meus braços
as estrelas solitárias
como eu
a sonhar o céu.

Olho pela janela
o Tempo fechado
com nuvens pesadas
sobre meus ombros.
O céu desaba
e nos meus olhos
os granizos ficam presos
nos cantos.
Sem lágrimas e sem chuva
minha Terra lamenta o peso
que corta a pele da alma
e sangra noites de profunda
solidão.
Atrás de mim
ficam os rastros conformados
com os pés que pisam fundo
um abismo de interrogações
que aceito como engulo o vento.
A vida que deita em meu corpo
é a vida que sonhei uma noite
não lembro do sonho,
mas sei que ele foi meu.

Um pedaço amputado de mim
vive, come e dorme
em algum lugar distante.
Dói tocar nesse vazio
que me preenche
na alma
ocupa a única certeza
de seguir em frente
olhando apenas
o segundo presente.

Se meu coração falasse
naquele momento
não diria nada
porque o amor
de tão grande
não caberia na língua
dentro de mim rasgou
um grito iluminado
que se pudesse sair
atingiria o espaço
como uma supernova.
Tão grande é meu amor
que o infinito de tão pequeno
não abraça tal  medida.

Pego peças
de encaixe
num quebra-cabeça
tem nome destino
prega-me peças
no Tempo sem nome
sem marcas
No jogo da vida.

Perco de mim
as retas que não traço
Traçam-me
em voltas sem resposta
Como traças no Tempo
devoram os escritos
num livro sem começo
e meio
sem fim.

Acaso por onde andas tu,
que passou por mim,
sem marcar passos.
Por acaso,
onde tu fostes?
soprar que ventos,
pontuar que mentiras
aos olhos sonolentos.
Acaso tu me olhas,
ou tu me esquecestes
nas linhas de pensamento
que não sei se escrevi.
Acaso onde tu estás?
Despistando os cegos
pelo caminho
ou se escondendo
dos sonhos?