Descobrir a leucemia da minha filha não foi um momento fácil. Diria que tudo que já enfrentei na vida, esse momento foi o de maior provação. Por muitos motivos, primeiro porque naquele momento da minha vida, a fé que eu tinha de que estava em total conexão com Deus era suprema. Segundo, porque sempre acreditei que minha filha viria para acompanhar os passos do meu primeiro filho, já que ele necessitaria de alguém dando-lhe apoio pelo resto da vida, então quando tive a notícia de que ela estava com câncer, foi como desabar todas as certezas em cima da minha cabeça. Perdi completamente o rumo nas minhas convicções.
Questionei freneticamente a Deus os motivos Dele para me dar essa repetição de sofrimento através dos meus filhos, essa coincidência tinha que ter um significado e durante todo instante eu queria saber qual. Não consegui encontrar essa resposta, mas acredito que ela exista e um dia saberei.
Logo após o diagnóstico, a indicação era internação imediata pelos riscos que ela corria, que eram muitos, pois o número de células cancerígenas já tomava 85% na medula. Foi aí que começou a batalha…
A primeira internação no hospital público, imundo, triste, as pessoas alheias ao estado de risco. Foi quando olhei para a mulher encarregada da burocracia de internação e disse que naquele lugar minha filha não ficaria, em meio aquela imundisse, onde o lixo hospitalar se espalhava pelos corredores dos quartos, o cheiro dos banheiros impestava. Mas a mulher disse que depois da entrada no hospital a saída só com ordem médica. A revolta me subia as faces. Por sorte ou por Deus, minha filha só ficou nesse hospital por 24hs, pois logo veio a providência divina e trouxe indicação de um lugar, e quando me deram essa alternativa já veio com passagens compradas. Iríamos para Campinas, para o Hospital Infantil Boldrini e lá os médicos já estavam cientes e nos aguardando. Minha filha e eu saímos de Fortaleza, daquele hospital do inferno para o aeroporto, com destino a um Hospital totalmente oposto, não diria o céu pelo sofrimento que era o mesmo.
Ao chegar a impressão era outra, o atendimento outro, o cheiro outro…Chegamos exatamente na sexta-feira santa, só estavam no hospital os plantonistas, mas nada deixou a desejar, minha filha foi internada imediatamente e depois de algumas horas, já estava dentro de uma UTI.
Eu não sabia absolutamente nada sobre leucemia, a única coisa que vinha na minha cabeça era que isso é um câncer e um cÂncer é um câncer…
As primeiras notícias foram horríveis, o médico de plantão na UTI colocou a situação para mim, mostrando os riscos que ela estava correndo naquele momento. Eu não conseguia acreditar e pensava, como uma criança de apenas 10 meses poderiar enfrentar e vencer tantas coisas ruins avançando pelo seu corpo e querendo destruí-la. Para mim, era uma luta desigual.
Eu sempre pensava no significado daquilo tudo e como sempre questionava a Deus: Por que? Para que? O que Ele queria? Acho que Deus sempre me ouviu e foi me dando as respostas nas melhoras da minha filha.
Depois de alguns dias ela saiu da UTI, absolutamente ilesa de todos os riscos que corria, as células que eram de 85% caíram para menos da metade. Então iniciamos o protocolo de tratamento da leucemia: as quimioterapias. Nada fácil.
Depois de uma semana, numa segunda-feira, conheci a médica que iria acompanhar o tratamento dela, Dra. Simone. Uma mulher enorme, séria, mas com uma voz tão suave, que mal conseguia ouvir, mas ela dentro do hospital era deus. E pegou o caso da minha filha, o que foi tido para muitas mães como algo excepcional, pois ela não pegava casos de LLA, mas quis Deus que fosse ela, deus naquele hospital, pela competência e currículo de dar inveja aos outros médicos, é fera a mulher, qualquer mãe se sentia segura quando era ela que cuidava de seu filho. Então, deu início ao que iria acontecer no próximo 1 ano em que teríamos que viver praticamente dentro do hospital.
Ficamos em Campinas, eu e minha filha, morando no Instituto Ingo Hoffmann, que possuía 30 casas individuais para famílias de pacientes do Boldrini. E essa era nossa rotina nesse ano que ficamos lá: Casa, hospital, casa, hospital, hospital, hospital…
No Instituto Ingo hoffmann convivi com outras famílias, mães e seus filhos com vários tipos de cÂncer, fiz algumas amizades, mas a rotatividade era grande, somente eu e outra, que tinha um filho de 6 anos, com leucemia também, ficamos mais tempo, erámos veteranas. Muitos voltavam ao tratamento em suas cidades porque moravam perto, interior de São Paulo ou Minas gerais, sem a necessidade de permanecer ali. Eu e a Dil víamos de muito longe, eu de Fortaleza e ela de Manaus, por isso não podíamos voltar pra casa.
É interessante como o ambiente influencia em nossa vida, a gente que vivia ali, respirando aquele universo não tínhamos muito asssunto, sempre estávamos falando de contagens de células, casos de cura, casos de morte, lutas e mais lutas das crianças e suas mães, isso era todo nosso tempo.
Mas conseguíamos ter momentos de diversão, todo mundo se unia nas refeições, fazíamos churrascos, eram momentos alegres. Duro mesmo era enfrentar a morte todos os dias na mente, principalmente quando ela vinha e levava mais um. Era duro olhar para uma mãe e confortar, como explicar a vontade de Deus em levar-lhe um filho? E muitas vezes um filho que era o único e sua razão de viver. É difícil lidar com a impotência diante o sofrimento alheio, muito difícil.
MInha filha teve muitos momentos difíceis, o que me doía mais era vê-la tão pequenina e tão perto de agulhas, sangue e dor, convivendo com isso quase que diariamente. Mas enquanto eu pensava nela com toda essa minha angústia, ela engatinhava por todos os lados, depois aprendeu a andar e se sentia dona do pedaço, era incrível como ela parecia não sentir absolutamente nada. Ria, se divertia e divertia todo mundo com a ingenuidade que só as crianças têm.
Sofreu nos momentos de dor, passou por todos os efeitos danosos da quimioterapia, ficou inernada algumas vezes, saíamos de madrugada para o hospital quando ela passava mal, foi difícil, muito, mas fomos enfrentando, ela com a força que Deus dar a todas as crianças, e eu nos meus momentos de isolamento, conversava com Deus e chorava para aliviar as tensões.
Duas coisas eu perguntava a Deus sempre: Por que aquelas crianças tinham que sofrer tanto? E o Que a vida queria me ensinar? Eu só queria aprender para poder salvar minha filha, ao meu ver, era a única coisa que eu podia fazer com toda a impotência que a gente sente.
E foi assim, nos primeiros dois meses, minha filha já estava livre da doença, mas tendo que seguir todo o protocolo de tratamento e os blocos de quimioterapia, e assim ficamos por 1 ano. Foi uma vida que vivi dentro da minha vida, pois aquele universo e tudo que vivemos ali é algo a parte e que marca para sempe. Sinto saudade das pessoas. Muitas crianças faleceram, algumas eu convivi muito próxima, doeu-me como se fossem filhos, pela convivência que tivemos. Doeu-me a incapacidade de tirar a dor das mães.
Ao final do tratamento, quando a médica, a poderosa Dra. Simone nos disse que iríamos voltar pra casa, chorei diante dela como se tivesse vendo minha filha renascer, chorei muito.
Minha filha tem quase 3 anos de idade hoje, é uma vencedora. E tem um brilho especial. Ainda faz quimioterapia, de forma reduzida, mas quando vamos ao hospital ela me surpreende: Deita na maca, coloca a bunda pra cima, toma a injeção sem nem um chorinho ou reclamação e depois indo embora segurando minha mão diz: “Viu mamãe, a sofia é valente.”
Outubro 24, 2010
Categorias: experimentações, filhos, maternidade, Sofia . . Autor: carol montenegro . Comentários: Deixe um Comentário