Eu sabia que era hora de ter meu primeiro filho, foi um sentimento que inundou minha cabeça, isso era uma certeza, e logo que ela tomou conta dos meus pensamentos uma semana depois eu estava grávida. Eu sabia que estava, mesmo o primeiro exame dando negativo. Mas logo depois de um tempo o exame de sangue confirmou.
Meu filho João nasceu em fevereiro de 2004, meu primeiro filho. Todo o pré-natal foi tranquilo até o sexto mÊs, quando tive um problema circulatório na perna esquerda. E por pouco não fui vítima dele. Por esse problema mudei de médico obstetra, pois o parto seria de risco, até aí tudo bem, o risco era para mim, não para meu filho, tudo em relação a ele estava sob controle, os cuidados deveriam ser comigo, pois eu que corria risco. Isso não me incomodava.
Tudo correu bem, todos os cuidados foram tomados e não houve problema algum comigo. Mas quando meu filho nasceu veio a surpresa: Ele nasceu com algumas más formações carecterizando uma síndrome. Em relação a esse momento não consigo recordar nada que tenha me dado qualquer sentimento de sofrimento, surpresa, medo, enfim…Quando as pessoas tentavam me explicar porque meu filho não podia estar comigo, do meu lado, naquele quarto no hospital, eu só percebia aqueles rostos comovidos, e até penosos, via como uma grande ilusão. Todos eles estavam enganados, para mim, meu filho era lindo e perfeito. De tanto insistir e para manter minha calma, horas após a cesariana, uma enfermeira o levou no quarto para que eu o visse, ele era lindo como eu imaginava. E essa confirmação me fez ter certeza de que todo mundo estava exagerando e que todos estavam iludidos.
Mas realmente ele nasceu com algumas más formações que percebi depois dos médicos me apontarem todas elas.
O primeiro mÊs ele ficou internado na UTI, e o doloroso era ter que ficar com ele algum tempo durante o dia e depois ter que ir pra casa sem ele. Ver o berço vazio. Mas depois de um mÊs ele conseguiu mamar e deixar a sonda por onde meu leite o alimentava.
Nos primeiros 3 meses ouvi de tudo um pouco a respeito das condições do meu filho. O primeiro diagnóstico foi de um médico neurologista que diziam ser o melhor dos melhores e que disse que meu filho tinha hidrocefalia e teria que usar uma válvula na cabeça, esse foi o primeiro erro, e de um especialista tido como o melhor. Depois de correr em vários outros neurologistas, teve um que disse que meu filho não tinha hidrocefalia e sim craniocinostose que é um fechamento precoce das suturas craniana. Esse médico deu certeza do seu diagnóstico. Então fui para a internet pesquisar sobre o assunto, foi quando descobri o Centrinho, através de um blog de uma mãe contando o caso da filha, entrei no site do Centrinho, onde ela dizia ter tratato a filha, e descobri esse hospital de referência na América Latina na cidade de Bauru, interior de São Paulo, para anomalias cranio-faciais, apelidado de Centrinho, imediatamente enviei um email suplicando que atendessem o meu filho. Um mês depois eles entraram em contato e marcaram a primeira consulta. E confirmaram a craniocinostose e a necessidade da cirurgia de craniotomia para abertura das suturas e correção da face. Aos seis meses de vida meu filho fez a cirurgia. Durante toda essa luta até a cirurgia eu parecia estar anestesiada, não sentia absolutamente nada dos prognósticos clínicos dos neurologistas pediátricos em Fortaleza, uma médica inclusive me aconselhou não fazer a cirurgia, pois seria uma agressão desnecessária ao meu filho, pois não lhe tratia qualquer benefício em relação ao seu quadro. Eu ignorei e ignorava tudo, para mim meu filho iria superar tudo aquilo e tinha a certeza de que o Centrinho era o lugar, os médicos de lá é que eu deveria ouvir. E foi assim que ele fez a cirurgia, que realmente foi muito agressiva por ser na cabeça, pelo aspecto que meu filho ficou depois, com hematomas enormes nos olhos, inchaços por toda a cabeça, pontos de orelha a orelha. Mas acredito que isso fez tudo mudar, pois deu condições físicas ao cérebro dele crescer sem ser comprimido pelo crânio que estava todo fechado. Sem a cirurgia o cérebro não teria espaço para se acomodar na caixa craniana e provavelmente teria crescido todo pra cima onde fica a região da moleira, era o único espaço que tinha e mesmo assim em tamanho reduzido se comparado ao de outras crianças.
Mesmo contrariando as previsões meu filho se desenvolveu, no seu tempo: sustentou pescoço com 1 ano, andou com 4 anos e ainda não fala, mas se comunica, entende o que as pessoas dizem, ainda com suas limitações de fala.
O João Victor é meu filho adorado, foi quem me deu a chance de perceber um mundo mais rico de valor, deu-me a sensibilidade às coisas que realmente importam nessa vida.
Foi minha primeira experiência mais próxima com a dor real, foi quando vi que Deus pode tudo e que faz e acontece contrariando qualquer conhecimento humano.
Minha experiência com os médicos me fez acreditar que diploma nenhum, pHd’s e sei lá mais o que, pode dar a um homem a capacidade de prever a capacidade que tem um ser humano de ir além das limitações do seu corpo. O corpo é só um corpo, mas o espírito é a força que nos move e ele é infinitamente poderoso e por isso vai até onde ele quiser ir. Médico nenhum sabe tudo, e praticamente o que um sabe, todos os outros podem saber, o que diferencia um dos outros é a sensibilidade para a natureza espiritual de cada ser, por isso quando um médico me dizia assim: Não sei se seu filho vai poder fazer isso ou aquilo, só ele pode saber isso, pois seu filho pode ir até onde ele quiser ir. Aí eu sentia que o médico era bom. E isso me serviu mais tarde para a experiência com minha filha Sofia.
Eu não sei de nada, minha vida não existe sem a referência dessas experiências, com o João e depois com a Sofia, as vezes sinto que nasci somente para ser mãe deles, pois tudo que sou hoje, tudo que aprendi, veio com a maternidade, e não só o fato de ser mãe, mas só pelo fato de ser mãe deles dois.
O João é um vencedor, sensível, e tem uma luz que dá a ele um carisma que envolve a todos que convivem próximo a ele e aqueles que conseguem transcender a barreira do preconceito e das falsas verdades, que são implantadas na cabeça das pessoas. Quando a gente olha o outro completamente neutro, tentando entrar no seu mundo sem julgamentos preconcebidos, e nos deixamos envolver pelo seu universo, descobrimos coisas incríveis, e no universo do João, existe um amor que sai de dentro dele tão lindo, tão caloroso, como se dentro dele existisse uma energia imaculada que existe para servir aos outros.
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