Quando eu era criança e até os 20 e poucos anos, eu tinha um jeito de lidar com a dor e a frustração. Não era bem um jeito de lidar, mas era como eu reagia a ela. Eu me escondia, fugia, literalmente. Procurava o lugar mais escuro, esquecido, afastado, isolado e ficava lá, romeoendo, remoendo, e chorando até ficar desidratada. Isso se repetia todas as vezes. Hoje não fujo mais, mas ainda gosto de um quarto escuro para remoer e doer até as últimas forças. A única coisa que eu quero nesses momentos é ficar a sós com minha dor, e não deixar que ninguém a veja. Muito cedo, eu percebi que quando ela era grande o suficiente, nada, nem ninguém conseguiria tirá-la dali, por isso, entregava-me mesmo ao combate. E essa necessidade impulsiva de ir para algum lugar se repetia sempre que eu sentia uma frustração muito grande; ou quando algo me machucava profundamente; ou para pensar. E isso acabou criando dentro de mim um lugar parecido, onde me tranco e fico, pensando, remoendo, chorando, e perguntando, tentando entender,defender-me, até livrar-me dela numa última lágrima.
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