Eu, em toda minha infância, não tive bonecas, nunca gostei delas. Gostava de carrinhos de controle remoto, inventar as brincadeiras, mas bonecas simplesmente não pintavam na minha vida infantil.
Até que chegou um dia, eu não era mais tão pequena, talvez tivesse mais de 10 anos, sei lá, uma amiga da minha mãe me deu uma boneca de aniversário. Era uma dessas que parecem um bebê gigante. Dei o nome a ela de Karina. E como ganhei no meu aniversário, ela nasceu no mesmo dia que eu. A Karina entrou na minha vida muda e saiu calada, mas mexia os olhos, dormia e acordava. E aos poucos comecei a gostar daquela presença sempre ao meu lado, até que esse gostar se ampliou, de forma que ela, praticamente, virou uma extensão minha. Talvez eu a visse como um pedaço de mim.
Eu conversava com ela e contava tudo que me acontecia. Algumas vezes chorávamos abraçadas, eu chorava, ela só aparava as lágrimas, e eu dizia: “Você é a única que me entende”.
Coitada, nem ela entendia, por isso ficava calada.
Mas a Karina era para mim alguém vivo, muitas vezes eu olhava nos seus olhos, e pedia em pensamento que ela falasse só comigo. E dizia que se ela falasse, eu não contaria para ninguém. Mas ela nunca falou. Talvez não confiou o suficente em mim.
Lembro de uma vez que eu estava triste e chorando muito por sei lá o que e pedia a Deus: “Oh Deus, nunca mais peço nada na vida, só quero que ela fale comigo.” Pois é, meus primeiros passos na insanidade foi com a Karina. E ela viveu muitos e muitos anos, mas morreu jovem, ainda com cara de bebê, porém seu corpo de pano, de tão velho e gasto pelo tempo, se desmanchou um dia nos meus braços, senti muito e chorei, guardei os braços e pernas até o dia em que percebi que conseguiria viver a nova realidade sem ela. Então, a Karina se foi de vez e definitvamente. Mas guardo a lembrança da única boneca que eu tive, e que muitas vezes socorreu-me na minha solidão.
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