Meu filho João é puro som, é na música e no ritmo onde ele concentra a sensibilidade, já a Sofia é imagem e a palavra. O primeiro gosta de dormir me ouvindo cantar e coloca minha mão nos cabelos dele para ganhar carinho. Já a Sofia, gosta de ouvir eu lhe contar histórias, que muitas vezes preciso inventar, e gosta de carinhos na barriga. Se isso são contrários? Não vejo como. Aliás a idéia de contrários tem mais a ver com espaço, posição do que exatamente com a idéia de contradição. Quando opostos se posicionam com polaridades diferentes, a sombra que existe entre a forma de um e a forma de outro é um caminho de diálogo e entendimento. O Budismo chamaria isso de caminho do meio, eu gosto de chamar o meio-termo. Termo tem um significado ligado ao Tempo, um meio-tempo, um tempo de acontecer, de encontro de casamento, um ponto, uma alinaça onde ambos se entendem. O Tempo e o espaço são duas grandezas que já parecem entrar em oposição, basta lembrar da matemática, da trigonometria. Mas eles não são grandezes que brigam entre si, se complementam, são como o céu e a Terra. Na Terra, o espaço, que eu chamo de caminho em linha reta, um tempo medido em horas, dias, meses, anos. É assim que o espaço compreende o Tempo. Já o tempo compreende o espaço no próprio tempo, no ponto, no instante, naquele momento em que um indivíduo existe, e esse ponto é exatamente o “Penso, logo existo.” Isso para o indivíduo, porque no céu eu diria que este ponto é o sol, ou a lua que se move como o tempo em linha reta, se observarmos sob o ponto de vista das suas fases ou mutações, que nos lembra a Terra e suas estações do ano, marcando novamente o Tempo. Então, o ponto, um ciclo, um círculo é sempre um diálogo perfeito e compreendido nesse mundo dos contrários. Meu filho gosta de repetições, de ver objetos que circulam, gosta de girar coisas. Onde concentro a minha mão ao lhes dar carinhos são dois pontos onde circulam energia, a cabeça e a barriga, o primeiro na identidade do si mesmo, circula pensamento, o segundo no Plexo solar as emoções, e ambos guardam em si a idéia do Eu. O Eu de cada um na questão “Quem é você?”, eu responderia a eles, o eu é uma sementinha que a gente planta e ver brotar num lugar chamado coração. Porque é nele o meio-termo, entre a cabeça e a barriga.
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