Meu filho vai fazer uma cirurgia do coração, corrigir um sopro no coração. Hoje ao levá-lo para tirar sangue, para o pré-operatório, o vi mais uma vez em suas dores. A expressão do medo nos diz muito sobre dor. Comecei a cantar, ele silenciou para ouvir, mas o medo insistiu, como se fosse respingos de memória. E resolvi falar com meu filho: “Essa dor não é sua, é minha”. E ele apontou o dedo para o local onde a agulha havia furado. É difícil dizer que sentimos a dor do outro, para esse outro que a sente em carne viva, porque é sempre ele quem sente. E carne é uma forma de observar onde dói. Mas eu sei que os ferimentos, as dores e os medos sempre podem ser aliados quando se busca fortaleza. Ontem, cantei a música que ele gosta de dormir, é como um calmante, ele simplesmente dorme como se sentisse o mais extremo do prazer naquele momento quentinho do amor. Daí onde nasce a compaixão, desse amor que vejo em instantes mágicos, onde existe uma semente que brota a compaixão. E onde existe a compaixão, existe um sentimento de impotência. Isso não é ligação de mãe e filho, mesmo que isso torne ainda mais estreito esse fio condutor. Se temos amor de verdade, reconhecemos a compaixão, porque ele por si só já nos faz perceber os semelhantes. E esse amor é o mesmo que nos diferencia. E assim imagino, todas as vezes quando o escuto falar de dor, assim buscando a cura naquele momento, depois em um instante seguinte, descobrimos luzes de manhãs. Porque felicidade, a gente simplesmente visualiza como se olhasse uma imagem dela todos os dias com um simples despertar por saber que tudo está contido em cada segundo, e cada segundo tem o poder de ser tão intenso que verdade nenhuma pode ser mais absoluta. Esta é uma face onde nascem todas as sustentações.
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